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Você é um filho da “Geração que dançou”?

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Prometiam uma “Nova Unção”. Há cerca de 20 anos o campo religioso evangélico brasileiro estava praticamente estático. O costumeiro declínio numérico das igrejas históricas e o crescimento quantitativo das igrejas neopentecostais, ambos inevitavelmente demonstrado nas estatísticas.

Era inicio dos anos 2000 e os movimentos do tabuleiro evangélico dos próximos anos já pareciam já definidos: Caio Fabio, fundador da AEVB (Associação Evangélica Brasileira) havia se retirado do Brasil. Durante muito tempo ele foi o opositor ideológico da IURD (1977). A Associação foi soerguida para criar polaridade às organizações neopentecostais, que ganhavam poder político e econômico e inseriam a Teologia da Prosperidade nas igrejas brasileiras. No entanto, Caio foi acusado de envolvimento com “Dossiê Cayman”, além de cometer o “pecado abominável número 1″ dos evangélicos, o pecado moral de um relacionamento extra conjugal. Foi execrado pela opinião pública evangélista. A AEVB se fragmentou. Isto aconteceu em 1998.

No início dos anos 2000, na mesma Igreja Batista que catapultou o cisma na Convenção Batista Brasileira (CBB) (nascendo a Convenção Batista Nacional – 1965), emergiu uma “nova unção” para o Brasil. Márcio Valadão, pastor da Igreja Batista Lagoinha, havia enviado seus filhos para uma temporada no instituto Christ For The Nation, Ana e André foram treinados teologicamente como avivalistas e no movimento da “Chuva Serodia”. O movimento carismático Later Rainafirmava que a geração contemporânea seria uma “geração escolhida”, portanto receberia uma “chuva fora do tempo”. Chuva de bençãos, de prosperidade e do avivamento.

Aos que viveram o protestantismo nos anos de 1990, só o advento do grupo Vencedores Por Cristo havia provocado tamanha onda transformadora cultural, sobretudo na área musical. O VPC rompeu barreiras musicais, inserindo o rock e ritmos brasileiros no protestantismo evangélico e apresentou às igrejas brasileiras um louvor congregacional destoante dos hinos do séc XVI-XIX até então padrão na maioria dos cultos evangélicos. Mas isso foi nos anos 70. Como o retorno de Ana Paula Valadão ao Brasil, a cantora e filha do pastor principal da Igreja da Lagoinha passa a conduzir os momentos musicais junto à uma das bandas que conduziam adoração nos cultos da Igreja Batista da Lagoinha. Conforme seu relato, tem uma visão: durante um banho, envolta à água e as espumas do chuveiro, antevê, em sua profecia particular, que  o Brasil seria banhado por uma onda de despertamento espiritual. Este evento fundante alavanca a gravação do primeiro CD da banda, que até então era simplesmente grupo que conduzia os momentos litúrgicos nos cultos da IBL.  Produzido e masterizado no exterior por Randy Adams, o CD explodiu em vendas. A escolha de Adams foi certeira e trouxe um padrão sonoro e de masterização de alta qualidade dificilmente encontrada nas produções evangélicas nacionais. A compra dos direitos da canção “Shout to the Lord” composta por Darlene Zschech, líder do ministério cristão australiano“HillSong” impulsionou a fama do grupo. “Shout to the Lord” era um sucesso garantido e o grupo “Diante do Trono”, já em seu primeira investida fonográfica, alcança destaque nacional.

Liderado por Ana, o grupo “Diante do Trono”, vendeu mais de 10 milhões de CDs e, concomitante à atuação fonográfica, impulsionou diversas novas linhas teológicas e eclesiologias pelo Brasil. Este ministério evangélico não só foi o maior catalisador musical do movimento gospel durante os anos 2000 como protagonizou uma segunda onda cultural na música cristã evangélica. Os protestantes históricos, urbanos e pós modernos, não vivenciavam outros horizontes litúrgicos por décadas. Agora seria diferente. As igrejas pentecostais e históricas estavam culturalmente estáticas, sem grandes alterações morfológicas e gramaticais e, apesar de certas tentativas para alterar o desenho das igrejas protestantes como a “Igreja com propósito”, “Rede Ministerial”, estes sistemas eclesiásticos soavam, para a maioria do grande público, gerenciais e americanizadas demais – tais fiéis históricos tinham um novo paradigma – a “nova unção”, operando principalmente através da música gospel e o sistema de igreja em células, que disciplinava os membro das igrejas à “ganhar, consolidar, treinar e enviar”.

Na carona do DT veio o G12 – sistema de células – criado 10 anos antes, em Bogotá. No inicio da década passada foi uma enxurrada de pastores históricos e pentecostais aderindo ao sistema, nem sempre com respeito à suas denominações e membresias. Os crentes tradicionais ficaram confusos. O que estaria acontecendo quase que “do dia pra noite”?

Em dez anos o deslocamento cultural foi efetivado – os antigos grupos musical das igrejas locais protestantes realizaram uma repaginação estética e estrutural/teológica. Igrejas perdiam membros e o solo se moveu de maneira sem precedentes, uma verdadeira hemorragia e circulação dos membros, em direção às igrejas “avivadas”. Ouvi-se sobre “a igreja onde as pessoas caem no chão, em êxtase” (fenômeno “reciclado” dos anos de 1960. Porém o fenômeno, que em um período anterior era reduzido à esfera do privado e da discrição, a partir do contemporâneo foi exposto midiaticamente pelos famosos artistas gospeis durante suas apresentações, virou “hit”). Em um Brasil pós ditadura militar e com o amadurecimento do neoliberalismo, cuja transversalidade influenciava outros setores estruturantes para além da economia, os sujeitos agora podiam operar suas próprias escolhas. A liberdade religiosa possibilitou o intenso trânsito das saberes do sagrado – sair de suas denominações familiares para outras (ou até, migrar para outras religiões não herdadas), mais modernas e conveniente, não era mais considerado como tabu ou afronta à religião dos pais.

Nesta onda surgiram novos grupos, novas teologias, novas “moveres”. Toneladas de novas bandas e pastores midiáticos. Também neste movimento o líder de adoração foi elevado ao status de um pastor. Considerados “levitas” que podiam “ministrar” ou seja, antecediam casa canção com uma pequena pregação, antes o estreitamento com as escrituras era condicionada somente ao Pastor protestante (Para o pós moderno a experiência proporcionado pela arte e pelos sons pode ser mais interessante que ouvir um sermão explicativo da bíblia ou frequentar um classe de catequização – a catarse emocional como elemento de transcendência, que era comum ao pentecostal desde o início do século XX, penetrava o culto do protestante histórico, em uma espécie de “pentecostalização tardia”, o êxtase tornava-se também régua na mensuração da espiritualidade do protestante comum/histórico). A experiência emocional cúltica definitivamente tornou-se sobrepujante à reflexão racional.  O que os crentes assistiam no DVD ou no show gospel precisava ser repetido em suas igrejas locais e nem sempre a cultura eclesiástica  local suportava tamanha e rápidas mudanças de paradigmas. Hoje praticamente todas as denominações não católicas, tem em seus repertórios, ao menos rabiscos da cultura gospel, tornando-se quase dominante à todos os viéses evangélicos.

Dificilmente alguém, sendo evangélico nos anos 2000, não ter ouvido sobre os grupos musicais Filhos do Homem, Casa de Davi, Santa Geração, Vineyard, David Quilan, Ludmila Ferber e muitos outros. Nesta mesma época muitos acessaram novos arsenais espirituais para eu cardápio: Vigílias no Monte, “mantras gospel”, unção com óleo, cânticos espontâneos, shofares, batalha espiritual, demônios territoriais, etc; anteriormente tais praticas com o sagrado eram observadas em  redutos específicos, a partir desta virada, popularizaram-se e, em muitos casos, tornaram-se fundamentais na experiência comunitária.

Costumes como “cair na unção”, atos proféticos, ser “pai de multidões”, surgiram no léxico do campo religioso protestante. Uma interpolação do antigo e novo testamento. Era um movimento tectônico poderoso de carga simbólica intensa. Para se entregar ao “novo mover”, os crentes precisavam transformar suas próprias biografias religiosas. A entrega ao “irracional”, ao “sobrenatural” era necessária e muitos “batistas” (presbiterianos, metodistas, …) “desde o berço”, através da inserção de suas comunidade aos novos vetores, realizavam esta metamorfose, ou pelo menos, simulavam.  Era preciso para “estar na visão”, embora muitos “lá no fundo” relutavam em entrar na onda. No entanto, com a adesão de suas igrejas e pastores ao neo carismatismo protestante, abdicaram da teologia conservadora, do estudo da bíblia como padrão de fé e confiaram suas pertenças religiosas à estas “novas visões”, adquiridas em congresso, CDs e literaturas que se espalhavam pelo Brasil.

Muitos se decepcionaram com estas promessas. Milhares, talvez milhões. Nesta movimentação, diversas comunidade resistiram à tentação do crescimento rápido, da evangelização fast food, propostas pelas novas técnicas. Muita gente bem intencionada, pastores e lideres mais conservadores, equilibrados, souberam realizar esta transição cultural com respeito. Outros não. Muitos dos quais decidiram fechar os olhos e lançarem-se aos novos movimentos, forçados pela pressão de grupos à “falarem em línguas”, ser “líder de multidões”, etc; hoje, após o desgaste dentro destes movimentos, optaram pelo desligamento, junto a muitos de seus membros. Recentemente ouvimos falar sobre os desigrejados, evangélico sem igreja, aumento do número daqueles que tem desafeição às igrejas evangélicas. Também, pessoas com sérios problemas psicológicos propiciados por abusos de pastores e lideres gananciosos.

Há de se discernir o “joio e o trigo”. Algumas comunidades “decantaram” todo o movimento, assimilaram coisas e descartaram excessos. Além disso a onda diminuiu, mas formarem-se algumas ilhas, regiões do “avivamento”, como Belo Horizonte (sede do ministério Diante do Trono) e Manaus (“capital” do G12, sede do ministério de Renê “TerraNova”.) Também as igrejas afins formaram redes e alianças, mais fios e traços dentro do complexo mapa religioso brasileiro. Concluo sugerindo que a geração que dança está passando, os jovens e adolescentes à época, tornaram-se adultos, com maior senso crítico e de avaliação de significados. Ainda não há sinais de uma nova onda tão significativa, ou então, tornou-se a grande onde fracionada em diversas outras vagas?

E 10 anos depois? Como estão os filhos da “Geração que dança”?

atualização 01/14 - Vale conferir a opinião do Pastor Caio Fábio, sobre alguns deste movimentos:

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  • #evangélicos #90 #neopentecostalismo
  • 3 months ago
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Antropologia do Consumo encontra a pegadinha do Silvio Santos

Em La Penseé Bourgeoise, capítulo significativo inserido na obra “Cultura e Razão Prática”, o antropólogo americano Marshall Sahlins (1930), revela uma alavanca acerca da fetichização dos produtos, através da dialética marxista. A fetichização, como tratada no texto, seria a objetificação (tornar-se objetivo ou elemento palpável, físico) dos  desejos e subjetividades existentes e capturados em uma determinada cultura. Explico: Na maioria das culturas ocidentais, marcadas pela supremacia estética norte americana, as necessidades mais comuns (fome, proteção, poesia) podem ser consumidas à partir de aparatos dos sistemas de produção, um acabamento magistral,embalagens descoladas, design de produtos, que torna, por exemplo, a lã, trigo, plástico, carbono, celulose em aparatos tecnicamente sedutores e esteticamente perfeitos.

Tornado prático esta explicação à luz de Sahlins:  o consumo de carne bovina, um “belo filé” de carne bovina, neste viés, seria sinal de virilidade, força e colocaria o consumidor à uma classe dominante. Consumir carne, na pirâmide social brasileira, é para poucos. Mas além disso, o ato de consumir um produto da Apple ou um filé nesta franquias que exalam o “american way of life" (Outback, Applebees,etc), segundo Sahlins, seria um ato classificatório: o consumidor em questão  pertence à determinada classe. Dominante.

Esta é uma ponta: a do consumidor. Do outro lado uma sofisticada espiral nos sistemas de produção - que vai desde as áreas latifundiárias até as prateleiras do supermercados. Sustenta-se  uma rede de molduras culturais que privilegiam um recorte exato de produtos e alimentos. quem segura a batuta são as megas coorporações, produtoras de sementes, fornecedoras de tecnologia, que são obrigadas a limitarem a variedade para potencializarem a produção e, e claro, o lucro.

Sahlins é intrincado e detalhistas demais em suas duas análises, sobre o não consumo de carne de cavalo e de cachorro, e sobre o modo de vestir dos americanos. Porque a preferência por determinados padrões de corte, a predileção entre as carnes externas e internas? O autor procura genealogias culturais que não deixam duvidas acerca da “não ingenuidade” de nossos comportamentos de consumo, existe uma cadeia histórica, ou  ”jazidas culturais” construídas através de tendências de mercado, desejos, subjetividades e mercado.

Comemos e vestimos uma rede de significados.Somos uma rede de significados. Polisêmicos em nossas experiência do viver, plural em nossa vivência de pertencer.

Acabei de ver esta “pegadinha” e lembrei da obra de Sahlins, lida e estuda em 2013, em uma aula de Antropologia na Unicamp. Em uma de suas seções o autor debate que consumimos certos produtos já processados e rejeitamos sua versão in natura. Veja a pegadinha em questão. Interessante ver que na maioria dos açougues no  Brasil não expõe pedaços muito grande dos animais abatidos, são expostos fragmentos, ou “não animais”. Sentimos afeto pelos bichos. O antropólogo afirma que quanto mais doméstico, menor a possibilidade de ter a espécie em nosso cardápio diário (dai sua longa exposição sobre o não consumo da carne de cães e cavalos, na maioria do ocidente). A exposição de partes inteiras ou do “rosto” do bicho desperta empatia. Porém, o mesmo bicho embalado, ou processados, em forma de salgadinhos, biscoito de bacon, creme, carne embalada à vacuo, lanches em cadeias de fast food, não. A comestibilidade está inversamente relacionada om a humanidade”. [“A preferência da comida e o tabu nos animais domésticos americanos”, Cultura e Razão Prática, M. Shalins].

Acredito que, “ultimamente” a predileção em consumir coisas, inclusive a auto fagia e o “canibalismo” estético que há na disputa das classificações pós modernas, principalmente influenciadas pelas mídias sociais, nos tornam como estes consumidores perplexos diante do suíno vivo: ao nos depararmos com situações reais, constrangedoras, infames (lembrando o “poema em linha reta”), realmente infames, imperfeitas, sem photoshop, podemos sucumbir a maior das comédias contemporâneas, a fim de sobrevivermos da Sociedade do Espetáculo (Debord), praticamos o suicídio autoral, de nós vivemos, a fim de vivermos historias formuladas. Por outros, ou como diria Sahlins, sermos vitimas de nosso processo civilizatório de fetichização. O “eu etiqueta” (Drummond) digital.

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  • #marshall sahlins #Antropolgia do consumo #pegadinha
  • 3 months ago

Réquiem de Natal

"Lembra que o sono é sagrado
E alimenta de horizontes
O tempo acordado de viver”

É meia noite.


25 de Dezembro do segundo milênio após a vinda do Cristo. Fogos explodem como em final de copa; parecem distantes, na cidade dos Homens. Os filhos de Adão comemoram.  Data festiva: o natal do ano 13 chegou e o planeta deu mais uma volta ao redor do Sol desde o último natal.


Paredes brancas, intermitente “bip”, cheiro de hospital. É meia noite na UTI cardíaca. Sou eu que estou na maca.


Fiodor Dostoievski, dizia que somos responsáveis por tudo o que fazemos. Réquiem. Depositado e só em um hospital na noite de Natal.


Desde o ventre materno, mais de 3 décadas, este era o dia do abraço, de dar aquela respiração longa e aliviada. Momento de revisão de vida, das catedrais de cores e histórias vividas, olhares leves, recomeços. Aqueles monumentais registros, que, quando visitado soturnamente pela tristeza , vinham à tona, como um mergulhador ofegante, a memória dos abraços e da alegria.  E sentimo-nos abraçados e alegres.


O médico interrompe meu silêncio. Entreabre a cortina que me separa dos outros. Tráz uma torta holandeza: “-Feliz Natal”. “-Obrigado”, digo.


Lido, desde criança com descompassos cardíacos. Quando menino, operei. Sopro. O problema foi resolvido. Após décadas de acompanhamento, cada vez mais espaçados e sempre com resultados positivos, esqueci-me do assunto. Talvez pelo intensidade dos últimos anos - entre alegrias e grandes recomeços - e pela morte de meu pai, no ano de 2012, exigiu mais de minha mente e corpo. As vezes sentia-me cansado e mal. Minhas forças diminuíam. Desacelerei. No últimos meses tive que me desligar de projetos e coisas que amava, precisava de fôlego e calma. Fiz bem.


Um dia antes do natal me senti mal. Tenho ainda alguns exames, mas estou bem.


O autor das escrituras cristãs Eclesiastes registra que “Há tempo para tudo”. Sabemos.  Acredito que nas últimas 2 décadas corri em um ritmo crescente, que culminou com alguns trabalhos vocacionais que não fizeram  brotar alegria plena em meu oração. Ganhei meus melhores amigos, mas o sistema é arrogante e cansativo, a máquina é voraz e não produz vitalidade sadia. Fiquei cansado e aprendi uma lição. Faz-se aquilo que o oração ardentemente deseja e também aquilo que o sagrado vocaciona-nos.   


Olhei nos olhos do silêncio, olhei para a verve da existência, olhei para dentro.  


Por apenas um instante, deixei de ouvir o que o tempo comunicava ao meu corpo: deveria, com a calma do embalar do adormecer, tomar como o ritmo de vida, a calma do campo e o compasso orgânico de como as coisas acontecem, com naturalidade e tranquilidade.  


Restou-me um réquiem.


Obrigado aos amigos e amigas que me ofereceram conforto e ânimo.

Anjos existem.


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  • #Notas #Diário
  • 3 months ago

O teólogo e seus ofícios

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Inicio de 2013, iniciamos um escola missiológica, em parceria com a Faculdade Teológica Batista de Campinas; para o estudo da teologia, missiologia em sua confluências dentro grandes cidades.

Nossa parceira, a Teológica de Campinas tem uma tradição de 35 anos de ensino teológico protestante (Batista). O centro procurará revisitar certos pontos e, sobretudo, discutir a possibilidade de uma “fé em movimento”, diante de um contexto onde muitas igrejas atuam extra-mundanamente, como os aspectos da fé e da religião não estivessem (jn)plantados em uma cultura, e esta, por sua vez, tecida dentro de uma sociedade. Os experimentares da fé não atuam em um arquipélogo de vácuos. Outros vertentes se inclinam aos fundamentalismos estanques, sem suscitar debates, mas isso é uma outra história.

Denominamos de “Ações na Cidade”: diante das demandas e necessidades humanas a partir do mundo urbano, este Centro de Estudo, poderia compreender e principalmente estimular a ação para a transformação de nossas cidades, fomentando projetos práticos para o promover a solidariedade e o compartilhar. Depois de um tempo este nome soava incompleto e também pouco sonoro. Pensamos. Veio o nome Pólis, vocábulo grego, que significa cidade. Parecia um nome legal. Tem dado certo e, por enquanto, abrange as áreas de debate dos cursos.

Parece mero detalhe o fato de se estudar um objeto sob a chave do urbano. A primeira vista, o mero fato de estar em ambientes citadinos e/ou rurais, pouco importam para uma reflexão prática. Mas é para onde aponta nosso o crescimento de nossas conversas..

Como sempre, a melhor parte deste projetos é revitalizar amizades e fazer novos amigos e amigas de jornada. 

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  • 4 months ago
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  • 4 months ago
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  • 7 months ago

Sobre deuses e rezas [por Rubem Alves*]

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Gosto do Rubem Alves, teólogo, pedagogo, filósofo. Ocupa em meu espaço de reflexão lugar privilegiado, carinhoso. Rubem, uma espécie de profanador do protocolo teológico, era uma das vozes que soprava em meu coração para que permanece curioso em relação à reflexão da teologia. O ano, 2005, eu: um seminarista protestante. Aprender teologia, tarefa delicada. A formação fez-me amigo da literatura e da filosofia, além de amizade duradoura com outros camaradas. Leituras, pensamentos. Lembro que em minhas idas à pé de onde morava ao seminário, passava em frente à sua casa. Certa vez nos encontramos…

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Sobre deuses e rezas [por Rubem Alves*]

Perdida no meio dos viajantes que enchiam o aeroporto, ela era uma figura destoante. A roupa largada, os passos pesados, uma sacola de plástico pendurada numa das mãos – esses sinais diziam que ela já não mais ligava para a sua condição de mulher: não se importava em ser bonita. Pensei mesmo que se tratava de uma freira. Seu comportamento era curioso: dirigia-se às pessoas, falava por alguns momentos, e como não lhe prestassem atenção procurava outras com quem falar. Quando vi que ela tinha uma Bíblia na mão compreendi tudo: ela se imaginava possuidora de conhecimentos sobre Deus que os outros não possuíam e tratava de salvar a alma deles.

Meu caminho me obrigou a passar perto dela – e quando olhei para o seu rosto de perto levei um susto: eu a reconheci de outros tempos, quando ela era uma moça bonita que ria e brincava e para quem olhávamos com olhares de cobiça.

Não resisti e chamei alto o seu nome. Ela se espantou, olhou-me com um olhar interrogativo, não me reconheceu. Com razão. Os muitos anos deixam suas marcas no rosto.

– Eu sou o Rubem!

Seu rosto se iluminou pela lembrança, sorriu, e pensei que poderíamos nos assentar e conversar sobre as nossas vidas. Mas sua preocupação com a minha alma não permitia essas perdas de tempo com conversa fiada. E ela tratou de verificar se o meu passaporte para a eternidade estava em ordem:

– Você continua firme na fé!?

– Mas de jeito nenhum. Então você deixou de ler a Bíblia? Pois lá está dito que Deus é espírito, vento impetuoso que sopra em todo lugar, o mesmo vento que ele soprou dentro da gente para que respirássemos, fôssemos leves e pudéssemos voar. Quem está no vento não pode estar firme. Firmes são as pedras, as tartarugas, as âncoras. Você já viu um papagaio firme? Papagaio firme é papagaio no chão, não voa. Pois eu estou mais é como urubu, lá nas alturas, flutuando ao sabor do imprevisível Vento Sagrado, sem firmeza alguma, rodando em largos círculos.

Ela ficou perdida, acho que nunca havia ouvido resposta tão estranha, mudou de tática e tentou pegar a minha alma do outro lado, desatou a falar de Deus, informou-me que ele é maravilhoso etc., etc., etc., como se estivesse no púlpito em celebração de domingo.

Refuguei e disse:

– Acho que quem não está firme em Deus é você. Olha, passei a noite toda respirando, estou respirando desde que acordei, e juro que agora é a primeira vez que penso no ar. Não pensei nem falei no ar porque somos bons amigos. Ele entra e sai do meu corpo quando quer, sem pedir licença. Mas a história seria outra se eu estivesse com asma, os brônquios apertados, o ar sem jeito de entrar, ou, como naquele anúncio antigo do xarope Bromil, o coitado do homem sufocado por uma mordaça, gritando pelo ar que lhe faltava. Por via das dúvidas até andaria com uma garrafa de oxigênio na bagagem, para qualquer emergência.

E continuei:

– Pois Deus é como o ar. Quando a gente está em boas relações com ele não é preciso falar. Mas quando a gente está atacado de asma, então é preciso ficar gritando pelo nome dele. Do jeito como o asmático invoca o ar. Quem fala com Deus o tempo todo é asmático espiritual. E é por isso que andam sempre com Deus engarrafado na Bíblia e outros livros e coisas de função parecida. Só que o vento não pode ser engarrafado…

Aí ela viu que minha alma estava perdida mesmo e, como consolo, fez um sinal de adeus e disse que iria orar muito por mim. Aí eu protestei, implorei que não o fizesse. Disse-lhe que eu tinha medo de que Deus ficasse ofendido. Pois há rezas e orações que são ofensas. É óbvio: se vou lá, bater às portas de Deus, pedindo que ele tenha dó de alguém, eu lhe estou imputando duas imperfeições que, se fosse comigo, me deixariam muito bravo.

Primeiro, estou dizendo que não acredito no amor dele, deve ser meio fraquinho, sem iniciativa, preguiçoso, à espera do meu cutucão. Se eu não der a minha cutucada, Deus não se mexe. E isso não é coisa de ofender Deus? Segundo, estou sugerindo que Ele deve andar meio esquecido, desmemoriado, necessitado de um secretário que lhe lembre suas obrigações. E trato de, diariamente, apresentar-lhe a sua agenda de trabalho. Mas está lá nos salmos e nos evangelhos que Deus sabe tudo antes que a gente fale qualquer coisa. Ora, se a gente fica no falatório é porque não acredita nisso. Não acredito em oração em que a gente fala e Deus escuta. Acredito mesmo é na oração em que a gente fica quieto para ouvir a voz que se faz ouvir no meio do silêncio.

Voltei à minha amiga:

– Veja você. Tive um filho que estudava longe. Eu gostava dele. Ele gostava de mim. De vez em quando a gente se falava ao telefone. E o dinheiro da mesada ia sempre, com telefonema ou sem telefonema. Agora imagine: de repente começo a perceber telefonemas dele três vezes por dia e mensagens por sedex, cartas e telegramas louvando o meu amor, agradecendo a minha generosidade… Você acha que isso me faria feliz? De jeito nenhum. Concluiria que o meu pobre filho havia endoidecido e estava acometido de um terrível medo de que eu o abandonasse. Pois é assim mesmo com Deus: quem fica o dia inteiro atrás dele, com falatório, é porque desconfia dele. Mas o pior é o gosto estético que assim se imputa a Deus. Uma pessoa que gosta de passar o dia inteiro ouvindo os outros repetindo as mesmas coisas, as mesmas palavras, as mesmas rezas, pela eternidade afora, não deve ser muito boa da cabeça. Para mim isso é o inferno. Quem reza demais acha que Deus não funciona bem da cabeça. Acho que ele ficaria mais feliz se, em vez do meu falatório, eu lhe oferecesse uma sonata de Mozart ou um poema da Adélia…

Mas aí o alto-falante chamou o meu voo, tive de me despedir, e imagino que ela ficou aflita, temerosa de que Deus derrubasse meu avião com um raio. Mal sabia ela que Deus nem mesmo havia ouvido a nossa conversa pois, cansado das doidices dos adultos, ele foge sempre que vê dois deles conversando e se esconde deles, disfarçado de criança.

28/2/94

 

* Texto extraído de: Rubem Alves. Teologia do cotidiano. São Paulo: Olhos D’água, 1994. p. 54-57.

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